Desabafo de parto

Cerca de três dias pós parto, escrevi:
parece que fui para a guerra e voltei
sobrevivi
mas ainda recolho meus pedaços
coloco a cabeça no travesseiro
tudo vem à tona
cenas de dor e desespero
me imagino contando sobre aquela noite
como se eu precisasse me explicar
explicar minhas decisões, meu sofrimento
então lembro quando tudo parou
imagino um soldado gritando em meio aos destroços:
ACABOU
quando segurei meu filho no colo
ouvi o silêncio profundo
não tive dúvidas sobre o amor
lindo e visceral

dizem que durante o parto
sua mente negocia uma fuga
para tentar escapar da dor
como se tempo e espaço não existissem
mas me lembro de alguns ponteiros
na fase mais desafiadora
reparei um relógio à minha frente
daqueles redondos tradicionais, branco com moldura e ponteiros pretos
lembro dos ponteiros entre 03:30 e 04:10
quando tive consciência do tempo
meu desespero aumentou
racionalizei
está demorando muito
lembrei
“o parto é entrega”
me entreguei, virei bicho
gritei com todo ar dos pulmões
como se a vida dependesse disso - e dependia
depois minha consciência de fato fugiu

até mais uma vez
precisar recobrá-la
exausta, pedi ajuda, implorei
disse que não aguentava mais
depois soube, foram 4 horas de expulsivo
quase 12h de trabalho de parto, sem analgesia
contrações perdendo a força
bebê baixo demais
a solução: o fórceps
o tipo de coisa que você não planeja
não se prepara
lembro de ver o instrumento
sentir medo
não foi rápido
não foi fácil
lembrei
“a dor do parto é a única dor que é para o bem, para conhecer o seu filho”
o grito
a força
a pressão
o sangue
a pior dor que já senti na vida
seguida da emoção mais intensa
é verdade quando dizem que esquecemos a dor
(uma meia verdade)
segurar no colo, contar os dedinhos, amamentar
naquele instante só existiu nós dois
*Gostaria de salientar que não sofri nenhuma violência obstétrica, fui muito bem amparada pela minha médica, meu marido e toda a equipe do hospital. Intervenções necessárias salvam vidas!




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