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Desabafo de parto

24 de set.
2 min de leitura

Cerca de três dias pós parto, escrevi:

parece que fui para a guerra e voltei

sobrevivi

mas ainda recolho meus pedaços

coloco a cabeça no travesseiro

tudo vem à tona

cenas de dor e desespero

me imagino contando sobre aquela noite

como se eu precisasse me explicar

explicar minhas decisões, meu sofrimento

então lembro quando tudo parou

imagino um soldado gritando em meio aos destroços:

ACABOU

quando segurei meu filho no colo

ouvi o silêncio profundo

não tive dúvidas sobre o amor

lindo e visceral


dizem que durante o parto

sua mente negocia uma fuga

para tentar escapar da dor

como se tempo e espaço não existissem

mas me lembro de alguns ponteiros

na fase mais desafiadora

reparei um relógio à minha frente

daqueles redondos tradicionais, branco com moldura e ponteiros pretos

lembro dos ponteiros entre 03:30 e 04:10

quando tive consciência do tempo

meu desespero aumentou

racionalizei

está demorando muito

lembrei

“o parto é entrega”

me entreguei, virei bicho

gritei com todo ar dos pulmões

como se a vida dependesse disso - e dependia

depois minha consciência de fato fugiu


até mais uma vez

precisar recobrá-la

exausta, pedi ajuda, implorei

disse que não aguentava mais

depois soube, foram 4 horas de expulsivo

quase 12h de trabalho de parto, sem analgesia

contrações perdendo a força

bebê baixo demais

a solução: o fórceps

o tipo de coisa que você não planeja

não se prepara

lembro de ver o instrumento

sentir medo

não foi rápido

não foi fácil

lembrei

“a dor do parto é a única dor que é para o bem, para conhecer o seu filho”

o grito

a força

a pressão

o sangue

a pior dor que já senti na vida

seguida da emoção mais intensa

é verdade quando dizem que esquecemos a dor

(uma meia verdade)

segurar no colo, contar os dedinhos, amamentar

naquele instante só existiu nós dois






*Gostaria de salientar que não sofri nenhuma violência obstétrica, fui muito bem amparada pela minha médica, meu marido e toda a equipe do hospital. Intervenções necessárias salvam vidas!


 
 
 

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